terça-feira, 3 de novembro de 2015

Chuva

Tic. Tac. Tic. Tac.

O som do pêndulo batendo nas paredes de madeira do velho relógio ecoou pelo sotão. Andy rolou e se apoiou sobre o lado esquerdo do corpo, de costas para o incessante som do pêndulo de madeira. Suas unhas longas arranharam o velho carpete cinza e levantaram quilos de poeira acumulada durantes os anos.

Tic. Tac. Tic. Tac.

Ela fechou os olhos e o som do pêndulo se confundiu com as gotas da chuva fina que embalavam suas lembranças. Mas não foi a chuva. Não foi a chuva que lavou a cor dos olhos dele.

Tic. Tac. Tic. Tac.
Não foi a chuva que escondeu a arma na gaveta da cabeceira da cama. Não foi a chuva que a transformou na criatura que agora ela via no vidro semiespelhado que protegia o pêndulo do velho relógio. Uma metade, fragilidade. A outra, desprezo. O inteiro, um monstro.

Tic. Tac. Tic. Tac.
Não, não foi a chuva. Não foi a chuva que trouxe os gritos. Os gritos dela e de Matt, competindo em força. Ela se perguntava quando haviam chegado àquele ponto. Não fazia ideia. Mas chegaram. Ele não a chamava mais de Andy. Ele mesmo dera aquele apelido, mas chegou ao ponto de chamá-la simples e friamente de "Andrea".

Tic. Tac. Tic. Tac.
Ele sequer falava. Sibilava suas ironias como uma cobra peçonhenta. Em pensar que alguns anos atrás ele jurara que a amaria na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença, até o fim dos seus dias. Um hipócrita, era o que ele era.

Tic. Tac. Tic. Tac.
Ele jurara estar com ela para sempre. Ela levava juramentos a sério.

Tic. Tac. Tic. Tac.
Se ele não queria cumprir a promessa que fizera por bem, seria por mal.

Tic. Tac. Tic. Tac.
Andy rolou de volta para a posição inicial, encarando o teto. Encostou o cano gelado no ouvido direito e sorriu. Eles ficariam juntos, sim. Para sempre.

A chuva lavou a cor de mais um par de olhos.

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