sábado, 11 de janeiro de 2014

O original


O termo amnésia é usado para descrever uma perda parcial ou total de memória, o que dá a impressão de que uma pessoa nova que você não conhece ainda esteja lá. Bem, eles são parcialmente certo, a pessoa que os demais conheciam se foi, em certo sentido, ela está em lugar da mente que você não pode alcançar. Deixe-me apresentar, meu nome é ... Bem, isso é isso, eu não me lembro de meu nome, eu sei que estou em um hospital, pelo menos o meu estado físico esta. Minha consciência está presa na minha cabeça, a única razão pela qual eu não me lembro de nada é porque eu posso ouvir e ver o que o meu corpo vê e ouve, no entanto, não tem muito mais o que ver. A verdadeira face da amnésia é como se fosse um disturbio de multiplas personalidades, mas neste caso apenas uma personalidade pode controlar o corpo físico, que o "controlador" acaba sendo vencedor da batalha inicial. Você vê, quando isso começa a outra personalidade está na sua cabeça tentando tirar você do controle, mas se ele ganha ele muda de lugar com você, não sendo mais você tomando conta do seu corpo, mas sim ele, e vice-versa. Aqueles momentos em que a pessoa tem a primeira "perda de memória" é a primeira luta perdida,  essa nova personalidade, que nunca experimentou o mundo, faz com que se tenha uma aparênte de perda de memória, embora essa personalidade possa decidir vasculhar suas memórias para procurar alguma coisa útil.

Minha amnésia já se prolonga por ... 13 dias, sim 13 dias, de acordo com quem quer que seja que está a falar com o meu corpo. Isso é muito tempo, eu tenho que lutar contra o David ... É como ele chama a si mesmo, eu tive um breve encontro com ele, quando ele assumiu o meu corpo. Eu não ficar aqui, ou ficar com sede ou fome, venho a pensar sobre isso. Eu vou usar isso a meu favor, eu vou depois para sua mente, minha mente. Mas por que ... Por que eu faria isso, eu quase não consigo lembrar de detalhes da minha vida ... Qual é o ponto ... Não, isso não sou eu quem está falando, é ele, tentando me reprimir, levar o que me resta. Eu tenho que lembrar ... De algo, meu nome, rosto, qualquer coisa ... Mas tudo está desaparecendo em um vazio qualquer de memórias inúteis. Sem uma identidade para sustentar as minhas memórias, ou um propósito para manter as memórias, elas estão desaparecendo lentamente no esquecimento, a serem perdidas para sempre, e uma vez que um número suficiente delas sumam suponho que essa consciência, que eu sou hoje, vai desaparecer e vou despedir-me de minha existência, e esse parasita do David vai ter ganho.

Algum tempo depois, quase todas as minhas memórias se foram ,agora, eu posso ver uma das primeiras das minhas memórias, o momento do meu nascimento. Mas isso não é o que eu estou vendo, eu me vejo ... Vasculhando memórias de David, usando aqueles úteis para fazer as pessoas pensarem que eu era o David original. Eu era a personalidade dividida, eu era o parasita ... Meu tempo total de existência foram 17 dias, não 28 anos...

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Tradução: Miss Insipida
Fonte: Creepypasta Wiki

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Brian.



Em uma casa escura, vive um homem. O nome deste homem é Brian. Brian é um ser humano muito inteligente. Alguns poderiam chamá-lo de louco, mas eu, pessoalmente, nunca vi nenhuma diferença entre as duas coisas. Brian gosta de brincar com fogo. Ele sempre gostava de assistir as chamas farfalharem, irem  para trás e para frente em uma casa velha. Ele sempre foi um rapaz muito agradável, tem dezenove agora, eu acho. Para um garoto de dezenove anos de idade, ele tem poucos amigos. Mas isso nunca o impediu, ele sempre fez piada de si mesmo, brincava com seus poucos amigos para pelo curto espaço de tempo que ele quisesse.

Um dia, ele decide sair com sua amiga Mandy. Mandy é uma moça bonita. Ela tem cabelo loiro claro e um sorriso encantador, ela é muito auto-consciente disso, mesmo assim ela desejava que tantas coisas mudassem nele ela. Ela desejava que ela tivesse cabelo curto e preto, a pele bronzeada, ser magra, mas, mais do que tudo, ela desejava ter olhos escuros, castanhos escuros. Brian chama ela para que venha a sua casa. Eles jogam por um tempo, mas eventualmente falam sobre suas inseguranças. Ela diz a ele sobre seus desejos e ele diz que ele pode ajudá-la.

Ele a encaminha para baixo, na garagem, fora da luz. Ele diz a ela que ele conhece um antigo ritual que poderia mudar o jeito que ela era para o que ela descreveu. Ele entrega a ela um recipiente e pede para ela se cobrir com o líquido. Ela, querendo muito isso, ansiosamente aplica o fluido. Brian diz para ela ficar ali enquanto ele vai obter o restante do material. Alguns minutos se passam e Mandy está começando a ficar com medo. Ela procura pelo quarto, com os olhos, uma vela. Ela finalmente encontra uma e a acende com os fosfaros ao lado dela.

A sala ilumina para revelar um espelho. Ela se olha nele, somente para ver-se coberta de gasolina. Com medo por sua vida, suas mãos tremulas deixam cair a vela, e a vela se apaga ao contato com o chão. Ela suspira em alivio, ela não está em chamas. Esse momento de relaxamento não dura muito tempo, ela ouve Brian descendo as escadas. Com medo Mandy se esconde atrás de uma prateleira e quase corta sua respiração. Brian entra e fica surpreso que ela não está lá, e se pergunta por que há uma vela no chão. Ele ascende as luzes, confundindo Mandy temporariamente, ela resalta levemente. Ao contrário de suas esperanças, Brian ouve o resalto perfeitamente bem.

"Você disse que queria pele bronzeada, nunca disse quanto" Brian disse enquanto ascendia um fosfaro e segurando-o em seus dedos.

"Perder peso, você nunca dusse quanto" Ele solta o fosfaro em meio a trilha de gasolina deixada por Mandy.

"Cabelos pretos e curtos, você não disse quanto por quanto tempo" As chamas se espalham seguindo a trilha até chegar na garota.

"Olhos castanhos, você nunca disse somente a iris"

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Creepypasta escrita por: IvoryLovesYou

Tradução e adaptação: Miss Insipida

Fonte: Creepypasta Wikia


Solfieri - Noite na Taverna

Sabeis-lo. Roma é a cidade do fanatismo e da perdição: na alcova do sacerdote dorme a gosto a amásia, no leito da vendida se pendura o Crucifixo lívido. É um requintar do gozo blasfemo que mescla o sacrilégio à convulsão do amor, o beijo lascivo à embriaguez da crença!

Era em Roma. Uma noite a lua ia bela como vai ela no verão por aquele céu morno, o fresco das águas se exalava como um suspiro do leito do Tibre. A noite ia bela. Eu passeava a sós pela ponte de... As luzes se apagaram uma por uma nos palácios, as ruas se faziam ermas, e a lua de sonolenta se escondia no leito das nuvens. Uma sombra de mulher apareceu numa janela solitária e escura. Era uma forma branca. - A face daquela mulher era como a de uma estátua pálida à lua. Pelas faces dels, como gotas de uma taça caída, rolavam fios de lágrimas.

Eu me encostei à aresta de um palácio. A visão desapareceu no escuro da janela e daí um canto se derramava. Não era só uma voz melodiosa: havia naquele cantar um como choro de frenesi, um como gemer de insânia: aauela voz era sombria como a do vento à noite nos cemitérios cantando a nênia das flores murchas da morte.

Depois o canto calou-se. A mulher apareceu na porta. Parecia espreitar se havia alguém nas ruas. Não viu a ninguém - saiu. Eu segui-a.

A noite ia cada vez mais alta: a lua sumira-se no céu, e a chuva caía às gotas pesadas: apenas eu sentia nas faces caírem-me grossas lágrimas de água, como sobre um túmulo prantos de um órfão.

Andamos longo tempo pelo labirinto das ruas: enfim ela parou: estávamos num campo.

Aqui, ali, além eram cruzes que se erguiam de entre o ervaçal. Ela ajoelhou-se. Parecia soluçar: em torno dela passavam as aves da noite.

Não sei se adormeci: sei apenas apenas que quando amanheceu achei-me a sós no cemitério. Contudo a criatura pálida não fora uma ilusão - as urzes, as circutas do campo santo estavam quebradas junto a uma cruz.

O frio da noite, aquele sono dormido à chuva, causaram-me uma febre. No meu delírio passava e repassava aquela brancura de mulher, gemiam aqueles soluços e todo aquele devaneio se perdia num canto suavíssimo...

Um ano depois voltei a Roma. Nos beijos das mulheres nada me saciava: no sono da saciedade me vinha aquela visão...

Uma noite, e após uma orgia, eu deixara dormida no leito dela a condessa Bárbara. Dei um último olhar àquela forma nua e adormecida com a febre nas faces e a lascívia nos lábios úmidos, gemendo ainda nos sonhos como na agonia voluptuosa do amor. Saí. Não sei se a noite era límpida ou negra; sei apenas que a cabeça me escaldava de embriaguez. As taças tinham ficado vazias na mesa: nos lábios daquela criatura eu bebera até a última gota o vinho do deleite...

Quando dei acordo de mim estava num lugar escuro: as estrelas passavam seus raios brancos entre as vidraças de um templo. As luzes de quatro círios batiam num caixão entreaberto. Abri-o: era o de uma moça. Aquele branco da mortalha, as grinaldas da morte na fronte dela, naquela tez lívida e embaçada, o vidrento dos olhos mal apertados... Era uma defunta! ... e aqueles traços todos me lembraram uma idéia perdida. . — Era o anjo do cemitério? Cerrei as portas da igreja, que, ignoro por que, eu achara abertas. Tomei o cadáver nos meus braços para fora do caixão. Pesava como chumbo...

Sabeis a historia de Maria Stuart degolada e o algoz, "do cadáver sem cabeça e o homem sem coração" como a conta Brantôme? — Foi uma idéia singular a que eu tive. Tomei-a no colo. Preguei-lhe mil beijos nos lábios. Ela era bela assim: rasguei-lhe o sudário, despi-lhe o véu e a capela como o noivo as despe a noiva. Era mesmo uma estátua: tão branca era ela. A luz dos tocheiros dava-lhe aquela palidez de âmbar que lustra os mármores antigos. O gozo foi fervoroso — cevei em perdição aquela vigília. A madrugada passava já frouxa nas janelas. Àquele calor de meu peito, à febre de meus lábios, à convulsão de meu amor, a donzela pálida parecia reanimar-se. Súbito abriu os olhos empanados. Luz sombria alumiou-os como a de uma estrela entre névoa, apertou-me em seus braços, um suspiro ondeou-lhe nos beiços azulados... Não era já a morte: era um desmaio. No aperto daquele abraço havia contudo alguma coisa de horrível. O leito de lájea onde eu passara uma hora de embriaguez me resfriava. Pude a custo soltar-me daquele aperto do peito dela... Nesse instante ela acordou…

Nunca ouvistes falar da catalepsia? É um pesadelo horrível aquele que gira ao acordado que emparedam num sepulcro; sonho gelado em que sentem-se os membros tolhidos, e as faces banhadas de lágrimas alheias sem poder revelar a vida!

A moça revivia a pouco e pouco. Ao acordar desmaiara. Embucei-me na capa e tomei-a nos braços coberta com seu sudário como uma criança. Ao aproximar-me da porta topei num corpo; abaixei-me, olhei: era algum coveiro do cemitério da igreja que aí dormira de ébrio, esquecido de fechar a porta .

Saí. Ao passar a praça encontrei uma patrulha.

— Que levas aí?

A noite era muito alta - talvez me cressem um ladrão.

— É minha mulher que vai desmaiada...

— Uma mulher!... Mas essa roupa branca e longa? Serás acaso roubador de cadáveres?

Um guarda aproximou-se. Tocou-lhe a fronte: era fria.

— É uma defunta...

Cheguei meus lábios aos dela. Senti um bafejo morno. — Era a vida ainda.

— Vede, disse eu.

O guarda chegou-lhe os lábios: os beiços ásperos roçaram pelos da moça. Se eu sentisse o estalar de um beijo... o punhal já estava nu em minhas mãos frias...

— Boa noite, moço: podes seguir, disse ele.

Caminhei. — Estava cansado. Custava a carregar o meu fardo; e eu sentia que a moça ia despertar. Temeroso de que ouvissem-na gritar e acudissem, corri com mais esforço.

Quando eu passei a porta ela acordou. O primeiro som que lhe saiu da boca foi um grito de medo...

Mal eu fechara a porta, bateram nela. Era um bando de libertinos meus companheiros que voltavam da orgia. Reclamaram que abrisse.

Fechei a moça no meu quarto - e abri.

Meia hora depois eu os deixava na sala bebendo ainda. A turvação da embriaguez fez que não notassem minha ausência.

Quando entrei no quarto da moça vi-a erguida. Ria de um rir convulso como a insânia, e frio como a folha de uma espada. Trespassava de dor o ouvi-la.

Dois dias e duas noites levou ela de febre assim... Não houve como sanar-lhe aquele delírio, nem o rir do frenesi. Morreu depois de duas noites e dois dias de delírio.

A noite saí; fui ter com um estatuário que trabalhava perfeitamente em cera, e paguei-lhe uma estátua dessa virgem.

Quando o escultor saiu, levantei os tijolos de mármore do meu quarto, e com as mãos cavei aí um túmulo. Tomei-a então pela última vez nos braços, apertei-a a meu peito muda e fria, beijei-a e cobri-a adormecida do sono eterno com o lençol de seu leito. Fechei-a no seu túmulo e estendi meu leito sobre ele.

Um ano — noite a noite — dormi sobre as lajes que a cobriam. Um dia o estatuário me trouxe a sua obra. - Paguei-lha e paguei o segredo...

Não te lembras, Bertram, de uma forma branca de mulher que entreviste pelo véu do meu cortinado? Não te lembras que eu te respondi que era uma virgem que dormia?

— E quem era essa mulher, Solfieri?

— Quem era? seu nome?

— Quem se importa com uma palavra quando sente que o vinho lhe queima assaz os lábios? quem pergunta o nome da prostituta com quem dormia e que sentiu morrer a seus beijos, quando nem há dele mister por escrever-lho na lousa?

Solfieri encheu uma taça - Bebeu-a - Ia erguer-se da mesa quando um dos convivas tomou-o pelo braço.

— Solfieri, não é um conto isso tudo?

— Pelo inferno que não! por meu pai que era conde e bandido, por minha mãe que era a bela Messalina das ruas, pela perdição que não! Desde que eu próprio calquei aquela mulher com meus pés na sua cova de terra, eu vô-lo juro — guardei-lhe como amuleto a capela de defunta. Hei-la!

Abriu a camisa, e viram-lhe ao pescoço uma grinalda de flores mirradas.

— Vede-la murcha e seca como o crânio dela!

Autor: Álvares de Azevedo.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Unhas

Dizem que 3 da manhã é a hora em que os espíritos ficam ativos, e disso eu tenho certeza. Meu apartamento sempre foi muito quieto para um no centro da cidade, especialmente à  noite. Nenhum bêbado gritando no meio da rua, nenhum barulho de alarmes ou buzinas de carro podia penetrar a escuridão naquela hora particular. Era como se meu apartamento ficasse no alto de uma plataforma cercada por uma densa neblina, a qual nem os olhos de gavião mais eficientes poderiam penetrar. Eu geralmente estaria tentando dormir nesse horário, depois de horas expondo minha pele à luz elétrica pura da tela do meu computador. Ênfase na palavra "tentando", porque é disso que se trata essa história. Eu estou avisando, se você esteve aqui por tempo suficiente, vai logo descobrir de que eu estou falando. Eu deveria contar logo, só para você saber que não está insano. Eu sei que eu não estou.

Todas as noites dos últimos 4 meses desde que decidi fazer deste apartamento minha casa, um estranho som cortaria o estranho silêncio que cercava minha casa - ou talvez só minha mente. Eu procurei por ele muitas vezes pelo apartamento, mas dentro das paredes à prova de som e do grosso piso de madeira eu não consegui encontrar nada. O som, no começo, parecia um barulho de arranhão. Se você tem unhas compridas, arraste-as no tampo de uma mesa de madeira. Era tipo isso. Era lento, e eu congelava cada vez que o ouvia. Não era dramático como um uivo fantasmagórico, mas ainda assim me assombrava tanto que eu voltava a ser criança e me escondia da cabeça aos pés embaixo do lençol.

Durante o dia eu trabalhava naquele que possivelmente era o lugar mais chato do mundo: uma fábrica que rotulava garrafas. Eles não precisavam de trabalhadores, mas eu não me importava realmente. Aquilo pagava minhas contas, e ficar sentado até que alguém precisasse de ajuda para consertar uma máquina não era tão ruim. Eu meio que sinto falta. Em compensação, sempre havia algo ruim acontecendo. Quase como se me seguisse. Por exemplo, uma vez um homem ficou com a mão presa em uma das máquinas de selagem, embaixo de um pedaço de alumínio. O barulho foi perturbador, soou como um cachorro mastigando um osso.

Toda noite, eu saía desse tédio sem fim para o meu apartamento, de volta para meu querido computador. O ciclo era sempre o mesmo. Trabalho, computador, barulho de arranhar. Eu nunca pensei em perguntar a ninguém a respeito, geralmente eu o esquecia pela manhã.

Certo dia, porém, eu não esqueci. Sentei na minha cadeira dobrável no trabalho, cercado pelas paredes de concreto, um cigarro esquecido se transformando em um montinho de cinzas no chão, enquanto tentava pensar em uma maneira de descobrir o que era aquela coisa. Porque eu não simplesmente o seguia? Acalmar os nervos e procurar a fonte do medo em mim. Só de pensar nisso eu congelei,mas eu sabia que tinha que fazer isso.

Então, naquela noite, eu desliguei o computador, como de costume, mas dei um passo extra. Eu peguei uma lanterna. Seria mais rápido do que correr pelo quarto procurando um interruptor. "Podem até ser ratos" eu pensei comigo mesmo enquanto deslizava para a cama, vestindo o uniforme de todo homem dorminhoco: uma cueca e um par de meias. Pelo menos, se eu saísse correndo e chorando do prédio, algumas pessoas poderiam rir um pouco.

O relógio lentamente começou a ir em direção às três da manhã. Como uma espada, eu deixei a lanterna desligada posicionada no meu peito. O colar ao redor do meu pescoço parecia estranhamente frio, por mais que eu tivesse ao menos três cobertores sobre mim. Ah, a alegria de um inverno particularmente frio. Fechando meus olhos, eu ouvi o arranhar. Lentamente ele ficou mais alto. Minhas mãos começaram a tremer, mas eu mantive meus olhos fechados. Por que eu não ligava a luz? Por que eu não estava olhando? Porque havia um novo som. Um tilintar trêmulo, como um chocalho cheio de pedaços de metal em vez de grãos ou bolinhas plásticas.

Uma batida na minha porta me fez pular de medo. Ligando a lanterna, eu dei um jeito de correr até o interruptor e ligá-lom. Com a mão fria e trêmula, eu abri a porta.

O que eu vi jamais vai sair da minha mente. Ali estava a fonte do meu medo, a coisa que de alguma maneira havia invadido a minha casa. Uma criatura estranhamente pequena e magra, como uma criança faminta com uma pele muito branca. Parecia um cadáver jogado na água, sua pele tingida num tom de azul. Cada veia era visível. Ah, como eu queria vomitar com aquela visão. Mas era ainda pior do que você está pensando. Estrategicamente posicionadas no corpo dessa criatura demoníaca, estavam presas grandes unhas de metal. Nas pontas de seus dedos das mãos e dos pés, saindo de seu pescoço e ombros, descendo seu tórax e saindo de seus olhos. Elas estavam em todo lugar. O quão alto eu gritei? Eu não fazia ideia. Alguém ouviria o grito através da neblina que cercava meu apartamento? Eu o ouviria? A verdade é que eu não conseguia parar de encará-lo. O sangue seco em sua pele decadente trouxe de volta minha última refeição, e um rio de vômito quente caiu de minha boca para o chão.

Eu fui para trás assim que a criatura deu um passo. À medida que ele se aproximava, seus pés se arrastavam pelo chão, as unhas nele fazendo... um som de arranhar. Por que eu tinha que manter meu quarto tão bagunçado? Não sei, mas a bagunça me atrapalhou. Claro que eu caí. Tentando me arrastar pra trás, eu encarei, horrorizado, a coisa morta.

Não se movimentava direito, eu percebi. Sua locomoção era torta e descoordenada, e um pé se arrastava atrás enquanto o outro avançava em minha direção. Em sua mão, havia um machado pesado e enferrujado, derramando gotas do que eu esperava ser água. Tinha uma leve cor de ferrugem. Na outra mão, havia uma sacola de papel que estava deformada com o peso como se alguém estivesse pendurando um porco-espinho dentro de uma fralda. Eu senti a parede nas minhas costas. A criatura se movia para a frente; eu estava paralisado com sua visão. Era muito grotesco. Na minha frente, ele parou. Eu vi marcas estranhas nas pequenas cavidades onde as unhas estavam, e senti uma estranha agonia.

A sacola em suas mãos se rasgou um pouco, e ver o que era me fez soltar um grito audível e provavelmente com cheiro de bile. Uma unha saiu. Eu gritei alto quando a coisa colocou a primeira unha no meu olho. Apesar do sangue bloqueando minha visão, eu pude ver sua boca se retorcer em um sorriso de orelha a orelha, as unhas em seus lábios fazendo-os jorrar sangue preto podre em mim. Eu gemi de dor quando outra unha entrou em meu segundo olho. Cego, eu me debati, mas não adiantou nada. Talvez fosse acabar logo. Talvez a morte fosse melhor que ser atormentado por aquela criatura pútrida. Ainda assim, as unhas entraram. Ainda assim, eu gritei bem alto. Eu não enxergava, mas droga, aquilo doía muito.

Já se foi, a criança com unhas.  Eu não sei para onde ele foi, mas sei que, em algum lugar, ele chegará às três da manhã. E eu também.

Acho que você deveria dar uma olhada no seu relógio, porque a sacola na minha mão está prestes a se rasgar.

Estou ansioso para te encontrar.
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Fonte: Creepy Tales
Tradução e adaptação: Capitu

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

"Manifestando a Raiva"

Antes de tudo, feliz 2014!
Fonte: Creepypasta Wiki
Tradução e adaptação: Capitu
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"Pare!"

"E por quê eu deveria?"

"Eu preciso de você fora dos meus pensamentos... fora da minha cabeça... saia!!"

"Você não me controla mais."

"SAIA!!!! AGORA!!!!!"

Eu senti uma onda de conforto me banhando. Como um gigantesco peso sendo tirado de meus ombros. Eu suspirei e me sentei. Demorou um pouco, mas eu finalmente abri meus olhos. Uma figura sombria estava de pé na minha frente, mas ela piscava como uma tela de TV quebrada. Negro e sinistro, ele se assemelhava a um humano, mas parecia mais uma silhueta. Ele não tinha profundidade, parecendo, assim, um recorte de papelão. Ele irradiava raiva e frustração, como uma aura. "VOCÊ FEZ ISSO!" Uma voz explodiu no quarto. Eu caí da cadeira e rastejei para detrás dela. Ele piscou e se moveu pra frente, sem nem mexer as pernas. "ERA ISSO QUE VOCÊ QUERIA!!!" De repente começou a sair lodo da criatura, se espalhando pelo quarto como tinta dissolvida em água. Ele continuou a piscar e avançar na minha direção. Eu queria falar e tentar fazer aquela coisa pensar, mas nenhuma palavra saía da minha boca.

Assim que ele me alcançou, um raio de sol atravessou a janela e começou a queimá-lo. O fogo atravessou a ele e o lodo. Mais raios de sol atravessaram a janela, e ele gritou. O grito perfurou meus tímpanos e fez doer minha cabeça. Preenchendo meu cérebro e me fazendo cobrir as orelhas, quase amassando-as numa tentativa de abafar o som. O monstro explodiu numa nuvem de fumaça, e eu deitei no chão, tentando me recuperar. Eu trouxe minhas mãos ao meu rosto, e vi que elas estavam sujas de sangue. Eu voltei a tocar minhas orelhas, e descobri que estavam sangrando. Eu me sentei e dei uma olhada no meu quarto, que agora estava destruído. Minha cama havia se partido em duas, assim como minha TV, que havia sido arremessada de sua base. Minha cadeira estava queimada, com uma parte reduzida a pó. O lodo tinha sumido, mas estava tudo queimado de algum jeito. Eu rastejei, ainda chocado e machucado por causa do que acabara de acontecer.

Minha mente estava agora limpa e livre, e eu era capaz de pensar sem qualquer interrupção. Eu peguei o pequeno livro perto da minha cadeira. O que meu avô não tinha feito pra conseguir esse livro... eu o folheei e li o título novamente. "Necronomicon", eu li em voz alta, enquanto ia até a página que estava lendo anteriormente. Um texto em uma língua muito antiga preenchia a maior parte dela, mas no topo da página, num inglês claro, lia-se: "Manifestando a Raiva". Eu pensei que ficaria furioso por meu avô ter me dado um livro que quase me matou, mas eu não senti nada.

Minha raiva havia ido embora, mas ela ia voltar. Toda vez que algo acontecesse e me desse raiva, ele aparecia novamente, me observando a uma certa distância.

Eu tranquei o livro e prometi a mim mesmo que jamais o leria novamente. Alguns anos depois, eu fui roubado. O ladrão levou o livro por engano.

Alguns anos depois, o livro poderia ser encontrado novamente em mercados (geralmente nos ilegais), repetindo o ciclo que existe desde a Idade Média. Só tome cuidado... algumas coisas não foram feitas pra este mundo.